
Nasceu Mário Augusto (MA), como poderia ter sido Marius Augustus, ou Mario August, e quis o destino que tivesse sido lá para os lados do norte.
Considerado um ‘ícone’ e um dos poucos representantes do ‘jornalismo cinematográfico’ desde os seus tempos na RTP, continua a sua senda no programa 35mm, o seu novo espaço (sempre) dedicado ao cinema num dos canais temáticos da SIC, o SIC Notícias.
Tenho a assinalar alguns pontos que me fazem escrever este texto dedicado ao cinema e aos seus dignos representantes. Não é que o considere completamente insuportável como tantos que nos assaltam tantas vezes a visão e a audição pela TV, mas penso que é tempo de tomar conta de certos pormenores que fazem com que certas figuras do panorama audiovisual perdurem no seio do mesmo. Poderão apontar-me puro preconceito, mas penso que não o é, e passo a explicar as minhas razões.
Alguém devia dizer a este senhor que os nomes dos actores são para ser respeitados, tal como os créditos finais que a SIC tanto teima em cortar no final de cada filme. Exemplos: Samuel L. Jackson passa a ser Samueli Jackson; Greg Kinnear passa a Greg Kinner.
Para além destes pequenos exemplos (e mea culpa por não tenho tido uma caneta e um papel à mão para assinalar cada pérola que se extrai), insisto em apontar o dedo à falta de reconhecimento pelo próprio de que o seu inglês é péssimo, e que já teve muitos anos para, pelo menos, se dedicar um pouco à língua dominante no assunto que tanto gosta de tratar. Penso que é uma questão de profissionalismo, e não uma mera implicância.
Questões linguísticas (logo técnicas) à parte, será que o trabalho deste profissional deixa de ser competente?
A resposta é SIM e NÃO.
No que toca ao SIM, num ambiente dominado, como já exposto atrás, pela língua mundial, que dirão os criadores e intervenientes dos filmes aquando de uma entrevista com o nosso compatriota em que o seu nome ou título de filme aparece no meio da conversa de forma mispronounced? Que dirá Mel Gibson (apontado como o pior entrevistado pelo seu comportamento menos educado numa das entrevistas) quando saberá que Mário Augusto o entrevistará? Poderemos censurar o actor? Afinal, é o MÁRIO AUGUSTO!!! Além disso, os programas têm quase sempre o mesmo formato (eis MA a falar e andar para a câmara; depois trailer; de novo MA agora com os entrevistados; mais um trecho; MA termina, saudando os telespectadores e deixando a dica de vermos “bom cinema”), não havendo espaço para filmes mais pequenos ou de menor projecção, ou de outras formas de organizar os temas do programa. Bem sei que um programa deste tipo tem uma duração diminuta, mas, mesmo assim, é uma questão de conteúdos. Os programas do canal Hollywood sobre esta matéria poderiam servir de exemplo, mas penso que MA poderia distanciar-se um pouco do padrão norte-americano de informar sobre cinema. Ainda nesta face da moeda, penso que MA joga muito com o trunfo das estrelas (o que lhe garante, à partida, a audiência) e a perguntas que não desafiam minimamente o entrevistado. Não quero dizer com isto que se deva incomodar os actores ou realizadores, mas para estes não deve ser agradável responder às mesmas questões sempre que vem um novo jornalista. Ainda outro dia vi uma entrevista como bónus do DVD de Memento efectuada por … com o realizador Christopher Nolan, responsável por filmes como Following, Memento e Insomnia. De ambas as partes (entrevistador e entrevistado), surgiu uma conversa (chamemos-lhe assim) interessante, inteligente, em que se dignificaram, e com público a assistir in loco. Fiquei a saber as motivações do realizador e do argumentista quanto às diferentes formas de abordar a estória do filme, alguns pormenores de realização, e a relação com os actores, sem entrar pelo politicamente correcto patente em tantas entrevistas-padrão, do género: “senti-me honrado com o convite para o filme X; foi óptimo trabalhar com um realizador como o fulano Y”, etc. Porque, acima de tudo, MA é um informador sobre cinema, sobre as novidades e sobre as estrelas, não dando espaço ao debate, como aconteceu à poucos dias no programa ‘Curto Circuito?’ da SIC Radical, cujo tema era “Quem tem medo do cinema Portuga?”. Liderado por Rui Pedro Tendinha, para mim o mais digno substituto de MA, porque pensa, debate, e procura cinema. Para informar sobre cinema, temos espaços nas televisões como o Caras Notícias, e outros programas sobre artes, espectáculos e cultura. Penso que é preciso aprofundar mais as questões, tornando os programas cada vez mais ricos em conteúdo. Por vezes, basta uma síntese das novidades para despertar a curiosidade de alguém ao cinema, pois os objectivos de cada um podem ser diferentes, mas penso que deveria haver mais espaço a programas expondo curtas-metragens, animação, crítica de cinema às novidades, um “Volta ao Baú”, repescando clássicos ou fundos de catálogo, exposição de trailers de filmes sem distribuição em Portugal, e muito importante, um espaço dedicado ao cinema dito português sempre que relevante, pois a produção nacional ainda é parca em produção desta espécie.
Pelo lado do NÃO, é inegável o conhecimento e o seu relativo à-vontade em mover-se no meio, como fica patente nas estrelas que consegue angariar para as suas entrevistas. Além disso, deve conseguir, em certos casos, estabelecer alguns laços com alguns dos entrevistados resultantes da sua continuidade como repórter desta espécie. O seu actual programa, pelas horas algo tardias a que é televisionado, pode tentar transpor um certo low profile por parte de MA (embora, tendenciosamente, considere que não). Mas, por outro lado, será que outros profissionais em Portugal não estariam em condições de fazer o mesmo? Não bastará o nome da cadeia de televisão (ou alguém muito influente nela) para garantir, à partida, um lugar nas entrevistas?
Conclusão: embora não seja um especialista nesta matéria, estou cada vez mais interessado em pequenos pormenores do cinema, seja pela realização, seja pela avaliação do trabalho dos actores, ou seja, penso que estou mais interessado em explorar a maneira criativa de uma película como oposição ao mero visionamento da mesma de forma algo superficial. E é por aí que me torno mais exigente: a mediatização deveria ser uma recompensa, e não uma lavagem de dinheiro. Quanto a MA, penso que este senhor pode ser mais relevante se o quiser (e está ao seu alcance), porque isto de viver sem concorrência tem sempre algo de mau.
Soluções: recolocar o Mário Augusto, ficando a cargo dos textos do programa, mas que se poderia tornar dispendioso ao contratar um pivot para ler o teleponto (Catarina Furtado, anyone?), ou voz off (sem ser o Cândido Mota, obviamente); lay-off (como quem diz: substituição ao intervalo) por Rui Pedro Tendinha, que é mais competente, mais aberto a outros tipos de cinema, mais perspicaz, menos tendencioso, e, voilá, sabe pronunciar bem o inglês; trazer de novo à ribalta o maior deles todos: LAURO DÉRMIO (obrigado Herman e Produções Fictícias por terem ressuscitado tamanha figura). Mas aqui acabava por ser incoerente, pois não deve haver pior pessoa em explanar-se no inglês (tal como não há ninguém que fale tão mal o francês como o ainda ‘rei’ de todos nós, Mário Soares).
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